Quarta-feira, Fevereiro 04, 2009

#99 *No silêncio dos crentes

Deixo-me levar no altruísmo das tuas palavras. Deixo que me olhes assim. E mesmo que não deixe, tu olhas-me, assim.
Entre as doces gotas de absinto confias-me certeza. Entre músicas e vozes soltas-me um aroma. Entre guitarras e ruas inclinadas voltas à certeza.
Ofereces-me uma dança servida em caneca de cerveja, gelada. Queimas-me a cera e eu corro. Entro no meu mundo de divisórias e não te vejo. Em realidade não vejo nada.
Acendo a luz e assim a deixo, vestida, destapada. Telefono, caio, adormeço, sem tempo, sem espaço. Para acordar e saber que a certeza é a madrasta dos crentes.

Segunda-feira, Dezembro 22, 2008

#98 *Os Lugares

Nem que por um dia seja
voltas a amá-las.
Nem de alguém que assim beija
poderiam elas esperar
atraiçoá-las.
Mas é no espanto da traição
residente estranho
e conhecido no coração
que és fiel,
e voltas por um dia
em aguaceiros de verão.

A amar, e para sempre!

Sem impor
A saudade que navega
Em cada lugar a que voltas
desde então.

Segunda-feira, Dezembro 08, 2008

#97 *2008

Sento-me na aresta da algibeira. Pergunto-me se devo cair, para dentro ou para fora de mim.
Identifico-me com ambos os lados e com a vontade de ir mas sei que não me encontrarei em parte alguma nos tecidos.
E as costuras tentam disfarçar. Sem sangue parece não haver feridas, ou apaga-se a memória da sua origem. Para continuar a cair para fora. Mas desta vez para dentro de mim, mesmo sem poder identificar a pertença de tantos pontos cirúrgicos.
Procuro saber então as origens. Procuro encontrar os beijos perdidos na minha boca gasta pelas palavras que num trago de saliva percorrem agora o meu mundo.
E os beijos, também esses, feridos e suturados procuram sair do bolso num gesto de ilusionismo.
É então uma ilusão a queda, para dentro ou para fora.
E como se também eu pertencesse aos beijos e às palavras deixar-me-ia percorrer o mundo e cair, sempre que fosse preciso, fora, dentro, de mim.

Terça-feira, Novembro 11, 2008

#96 *(in)diferentes

Tentei ver se a chuva que batia nos vidros ganhava a forma das tuas lágrimas em saudade.
Tentei perceber se tudo estava bem enquanto anoitecia.
As tuas noites são as minhas manhãs e quando acordo nem a dormir estás.
Onde andas? Por onde viaja a tua alma se nem num eco das montanhas a posso escutar.
Onde está a saudade que te ouvi pronunciar enquanto espreitávamos a velha cidade?
Talvez sejam as minhas lágrimas, sós, que oiço ao ritmo da vida. Talvez, também por estarem sós encontram a sua razão de existir.
Gostava que ouvíssemos a mesma canção agora. Mas tu danças, ao som da alegria telúrica. Eu levo as minhas lágrimas para os lençóis e deixo-me adormecer nas notas da diferença e da indiferença.

Domingo, Setembro 14, 2008

#95 *En Portugais

Tranquilidade, ritmo e lábios.
Amor, escondido em verdade. Enquanto nos experimentámos.
Um abraço efemeramente eterno, pela força com que mo deste. Pela intenção; pelo que escondias ao tentar perceber o quanto eu seria teu.
Já o era. Ali, naquele momento em que te olhei de mochila pronta para partir.
E mesmo que num silêncio pudesses duvidar que também tu já eras minha deixavas o teu olhar partir comigo na bicicleta enquanto também eu deixava o aglomerado de cimento onde vivias para te trazer comigo até ao parque. E no escuro, ao invés do habitual medo que o pedalar chinfrineiro me causava, vinha o teu perfume misturado com as montanhas e percebia o quanto aquele lugar era teu e meu. O quanto eu queria voltar à noite de tempestade em que guardei os Alpes e o lago para o primeiro e o último momento.

Mas agora me apercebo que não há um tic-tac entre nós. Que não há datas nem relógios.
Que a hora é apenas uma metáfora da obrigatoriedade. Porque no amor não há obrigação.
Somos voluntários da vida.
Mas a nossa realidade, vivemos numa dança, ao ritmo de cada canção.
E a minha vivo-a ao ritmo da descoberta.

Parei de procurar para (te) descobrir.

Quinta-feira, Abril 17, 2008

#94 *Mensagem morta

Pego na bicicleta e escrevo um diário.
Agarro na caneta e no moleskin e deixo os pedais rolarem e o silencio prender-me.
O valor das palavras ficou destruído no consumo.
Um beijo e um abraço já não têm forma, cheiro nem sabor.
Os sorrisos já não são dos poetas.
O mundo, o meu, vive de um trabalho, de uma energia de substituição. Até porque mais uma vez os poemas estão mortos no egoísmo de quem os lê.
Há ainda quem queira espalhar mensagens no mundo. Eu gosto de entregar as minhas pessoalmente, porque o mundo não é para mim, pelo menos não este.
Vivo então na introspecção sobre tudo isto. Crio o meu sonho de criança.
Volto então à bicicleta e ao diário e deixo-me abraçar pelo que resta da verdade.

Domingo, Março 02, 2008

#93 *Referência

Confusão, saudade de algo, alguém.
Agora que o cigarro já não te faz companhia, deixas a companhia de todos.
Perdes-te numa noite qualquer e não te consegues lembrar, confessas-te.
E continuas perdido mesmo que reconheças minimamente o espaço onde estás.
Apaticamente deixas o silêncio ficar em ti. A canção alegre já não substitui quem és.
Bipolar, esquizofrénico, hipócrita. Todos são estranhos à tua volta.
Entras na solidão e na culpa dos desabafos. Estás contra tudo e todos, e sobretudo contra ti mesmo.
Perdes-te no olhar dela, em busca de uma mensagem. Apercebes-te então que quando estás calado és pequeno. A pequena palavra que tentas expulsar é curta e desconexa. Ela não te procura, ninguém te procura.
Começas a rever-te num passado próximo, com motivos diferentes, mas a culpa é e sempre será tua, se quiseres continuar a acreditar.

Onde estás? Onde estás minha terra firme? Onde está o mar com quem falei, as gotas que admirei na folhagem de inverno? Quem és tu que consegue identificar os conceitos mas não sabe quais são as realidades que os seguem?
Onde estou eu, aquele que se encontrou, nunca na destruição que se constrói na insegurança?

Volta.